Sempre que paro para pensar na minha trajetória, percebo que boa parte do que me tornei foi moldada por professores que deixaram marcas profundas em mim. Não falo apenas de conteúdos ou técnicas, mas daquelas presenças que, de alguma maneira, fizeram o mundo parecer maior, mais curioso e mais possível. E, olha, isso vem de alguém que não costuma admitir sentimentalismos em voz alta — mas cá estamos.
Tudo começa lá na infância, com a Tia Olguinha. Foi ela quem abriu as primeiras portas para um mundo que eu ainda não entendia, mas que parecia fascinante. Depois, já um pouco mais crescido e cheio das manias escolares, vieram outros nomes que se fixaram na minha memória: a Jandira Antun, com seu domínio do português, que me fez perceber que a língua podia ser mais do que um conjunto de regras; Letícia (??) Kimura – fiquei na dúvida do primeiro nome, mas o sobrenome não!, que conseguiu a façanha de me fazer gostar de matemática — e, convenhamos, isso merece uma estátua.
Teve o Professor Borba, com sua mania de fumar na sala e jogar giz – sim, naquela época os professores usavam giz branco (ou de outras cores) e escreviam numa lousa de fundo verde, nada de lousa digital, que conecta internet (isso nem existia naqueles tempos), voltemos ao Borba, era Geografia, ensinou-me as regiões, os relevos e tudo mais; lembro também do Prof. Messias, com as aulas de Educação Moral e Cívica (sim, existia essa matéria…) e assim foi até terminar esse calvário do ensino fundamental e médio, e muitos outros que me fogem na memória.
Na graduação, a história ganhou camadas novas. Hector Leis me apresentou debates sobre poder e lugar de fala que me acompanharam por anos; Marcílio Dias abriu caminhos sobre Tecnologias de Comunicação e Informação no Ensino; Scherer-Warren descortinou o universo das redes de movimentos sociais; e Óscar Calávia colocou-me diante da antropologia das religiões como se abrisse uma janela para outro planeta. Lembro até hoje da primeira vez que encarei Os Argonautas do Pacífico Ocidental, de Bronisław Malinowski — um daqueles livros que nos dá a impressão de que a vida acadêmica pode ser uma aventura, antes de descobrirmos que envolve também prazos, bancos de dados e café frio.
Durante o mestrado, outros nomes foram se somando: Nerí dos Santos, com ergonomia e usabilidade; Michel Misse (in memoriam), com seus estudos sobre violência e criminalidade; Bernardo Sorj, com suas discussões sobre diáspora judaica. Cada um, à sua maneira, foi empurrando a minha visão de mundo para lugares que eu sozinho não chegaria.
E foi assim, carregando esse mosaico de mestres, que em 2003 iniciei minha própria trajetória como professor no ensino superior. Quinze anos tentando, de alguma forma, colocar em cada aula um pouco do que recebi daqueles que vieram antes de mim. Às vezes conseguia; outras, parecia que estava apenas tentando não tropeçar na tecnologia da sala. Mas sempre havia o desejo sincero de transmitir algo que fosse além do conteúdo: o encanto pelo aprendizado.
Com o tempo, também encontrei meus próprios alunos marcantes — aqueles que até hoje surgem nas minhas redes sociais, os que me reencontram pelos corredores da vida, os que lembram de uma frase que eu nem recordava ter dito. E é sempre nos momentos frugais da vida, ou naqueles em que ocorria a formatura, quando o curso chega ao fim, que essas memórias afloram: as homenagens inesperadas, as mensagens sinceras, o reconhecimento de um caminho que percorremos juntos. Nessas horas, mesmo que discretamente, eu me pego pensando: “poxa… acho que fiz algo certo.”
Se você que me lê também é professor, talvez saiba exatamente do que estou falando. Não é um ofício simples — longe disso —, mas é um dos poucos em que podemos devolver ao mundo, aula após aula, um pedacinho dos mestres que nos formaram. E, quando vemos esse ciclo continuar, é impossível não se sentir tocado. É um privilégio silencioso, desses que não cabem no currículo, mas ficam guardados no coração — mesmo que a gente faça pose de durão.

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