A estrada não me era estranha. Já havia passado um tempo na divisa com o Paraguai, em Ponta Porã; servido na Marinha, no Rio de Janeiro; puxado boi magro de Cidade Jardim, no Mato Grosso do Sul, até Paranavaí, num caminhão boiadeiro. Eu já estava na vida. Quem sabe ali poderia dar certo.
Porto Velho me recebeu sem promessas, mas com trabalho. Primeiro, locutor na Rádio Nacional, sem vínculo, mas com algum dinheiro entrando. Depois, Souza Cruz. Logo em seguida, troquei por outro emprego — nem melhor, nem pior — numa empresa de produtos farmacêuticos. Foi ali, como propagandista, que a vida começou a se mover de verdade, como se alguém tivesse apertado o play.
E então, numa quermesse qualquer — dessas pequenas demais para parecerem decisivas — eu a vi.
Linda. Tipicamente amazonense, ou talvez portovelhense; pouco importava. Havia nela um mistério de rio profundo: olhar cativante, cabelos negros e fartos, pele de avelã. Bastou um instante. Meus olhos não conseguiam desgrudar daquela figura; eu a seguia com o olhar como quem sabe que algo irreversível acabou de acontecer.
Não sabia exatamente o que era aquilo, mas sabia que precisava reencontrá-la. E, quem sabe, com sorte, tê-la por namorada.
O Universo — esse debochado profissional — conspirou a favor. Tudo convergiu para que nossas vidas tomassem o rumo de uma relação intensa, cheia de aventuras, paixão e amor ardente. Cada olhar dela me incendiava. Eu me sentia cada vez mais encantado pelo seu jeito de ser. Jurei, naquele tempo, que nunca a esqueceria. Achei que seria para sempre.
Mas o Universo também gosta de virar o jogo sem aviso.
Sem motivos aparentes, sem explicações, sem fechamento digno, nosso amor teve um fim abrupto. Fiquei submerso em desespero. Procurei por ela de todas as formas possíveis — em vão. O ego ferido acabou se aventurando por outros caminhos, outras histórias, outros rostos. Parecia que eu iria esquecer.
Não esqueci.
O tempo passou. A vida tomou rumos diferentes. Cada um seguiu para seu lado, sem nunca mais nos encontrarmos. Mas aquela jura permaneceu intacta: nunca a esqueci. Jamais.
Trinta anos se passaram. O mundo mudou. Fitas cassete viraram playlists digitais. Mas a conexão entre nós permaneceu — um arquivo impossível de deletar.
Não foi mágica. Foi determinação.
EM 1995, já no curso de graduação em Florianópolis - sim, eu giro o mundo, conheci a ferramenta que poderia ajudar-me a procurá-la. Ali eu tive contato pela primeira vez com um computador e com a Internet (chamávamos de WEB). Ainda muito incipiente, não era fácil encontrar alguma coisa nela. Não havia ainda um Google, naquela época usávamos o Yahoo e o Cadê? (lembra disso??)
Bom, certa vez encontrei menção em um blog, ou jornal, não sei, de Manaus. Ela criticava alguma coisa sobre lojas, ou coisa assim. Claro que eu já comentei, colocando aquela frase que me marcou (acho que a ela também): "Esquecer-te, jamais!". Mas nada aconteceu.
Assim passaram mais alguns anos, alí por volta de 2004 ou 20005, aqui no Brasl, surgia o Linkedin, claro que eu corri para criar meu perfil ali e a procurei também, e nada. Mas um dia, um clique nessa rede profissional e acadêmica (sim havia procurado no Orkut, Facebook, ICQ, entre outros) aparece um informação com aparência profissional, quase inocente, mas o coração reconheceu antes da razão. Encontrar seu nome entre milhares não foi sorte; foi persistência.
Ainda assim, o LinkedIn era a cabeça. O que eu buscava era o coração.
Você não estava ali para um “match” de carreira. Era o match da vida.
Veio então a virada: a migração para o Instagram. A busca incessante, o deslizar de perfis, tentativas frustradas, até que, finalmente, a imagem. O rosto — agora mais maduro — mas com o mesmo brilho nos olhos que me fez parar de respirar décadas atrás.
Eu não desisti. Cada pesquisa falha só alimentava a certeza de que a recompensa seria você.
E então, o reencontro.
O que antes era apenas perfil virou presença. O que era foto virou carne. O que era lembrança virou toque. Um amor que atravessou estradas de terra, silêncios longos, duas redes sociais e três décadas finalmente deu login na felicidade.
Somos a prova do Amor Hacker: aquele que contorna obstáculos, ignora o tempo e usa todos os recursos disponíveis para reconquistar o que nunca deveria ter sido perdido.
E foi assim, caro leitor, que a história recomeçou.
Não como algo novo, mas como aquilo que sempre foi — apenas interrompido. Com alguns retoques ainda por fazer, é verdade, mas agora seguindo adiante com a certeza de que o destino havia nos pregado uma peça mal ensaiada. Não era o fim. Nunca foi. Era apenas uma pausa longa demais.
Nossa história não terminou; ficou suspensa, como um salto congelado no ar, esperando o instante exato para tocar o chão outra vez. O momento certo chegou. E quando chegou, não exigiu apagar os arquivos mais importantes — apenas reiniciar o sistema.
O mesmo SO. A mesma essência.
Com pequenos ajustes no HD: mais memória emocional, mais velocidade para amar e, sobretudo, mais segurança para permanecer.
Assim, reiniciamos aquilo que nunca deveria ter parado.
E seguimos — não para corrigir o passado, mas para finalmente viver, no presente, o futuro que sempre nos pertenceu.

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