quinta-feira, dezembro 11, 2025

Das coisas que a gente lembra sem querer... o pássaro e a gaiola dourada.

A gaiola era de ouro — brilhante, perfeita, cintilando como se cada barra tivesse sido polida por expectativas alheias. E o pássaro, coitado, vivia ali. Tinha comida, sombra, e um canto que ecoava bonito nas paredes douradas… mas bonito demais, como se a própria acústica o estivesse enganando.  Era de alegria? De tristeza? NEm mesmo ele sabia.

A porta estava aberta há anos. Aberta. Escancarada. Um convite silencioso que reluzia sob a luz, como se dissesse: vai! Sê livre!

E, ainda assim, ele não voava. Permanecia ali, ofuscado pela reluzente gaiola dourada.

Não era medo exatamente. Também não era comodismo — embora a almofadinha dourada no poleiro, macia como desculpa, ajudasse bastante a permanecer. Era um vazio mais fino que ar, mais afiado que silêncio. Uma ausência que brilhava como ouro falso: bela à primeira vista, mas fria ao toque. Algo faltava — um fragmento esquecido de si mesmo, escondido onde as lembranças, às vezes, se recusam a iluminar; uma velha chama que teimava em não se euxarir.

Então, num daqueles acasos cósmicos que parecem orquestrados por mãos invisíveis, aquele tal de Universo, com senso de humor duvidoso, o pássaro encontrou aquilo que achava ter perdido: um lampejo antigo. Uma lembrança. Um alguém.

Um brilho que não vinha do ouro, mas dele. Uma centelha que avivava a velha chama!

Aquilo — ou aquele alguém — não trouxe respostas, nem discursos inflamados. Apenas reacendeu aquela centelha. Pequena, mas teimosa. A lembrança do que era ser livre por dentro, antes mesmo de aprender a voar. A lembrança do que era ser feliz sem saber, do riso solto e leve e das brincadeiras da juventude.

E ali o pássaro entendeu: a porta sempre estivera aberta, mas ele não. 

As grades mais fortes eram as que carregava no peito.

Então começou a arrancá-las, uma por uma — medos, pânico, incertezas e certezas herdadas, a anestesia confortável da rotina dourada.

Doía. Claro que doía. Libertar-se sempre raspa a pele em algum lugar. Mas quanto mais se desfazia das amarras, mais as asas pareciam cintilar com uma luz que não vinha de fora.

Até que, enfim, bateu as asas — sem pedir permissão à dúvida — e subiu.

Subiu tanto que a própria luz mudava ao seu redor, como se o céu estivesse gradualmente lembrando seu nome. O mundo lá embaixo virou um borrão, e a insegurança encolheu, diminuindo até virar apenas um ponto.

No ar rarefeito da coragem, abriu suas asas por inteiro, e parecia que cada pena refletia um pedacinho do céu, como se fosse feito do próprio azul.

Num salto ousado, mergulhou em voo rasante sobre penhascos — o vento cortando o peito como quem varre restos de histórias antigas.

E então viu, de relance, a gaiola dourada. Pequena demais para qualquer sonho. Fina como joia esquecida. Tão distante que sua luz já não o seduzia.

À frente, a imensidão azul se estendia — não como paisagem, mas como promessa. Um céu tão vasto que quase o chamava pelo nome. O pássaro se deslumbrou, não com a beleza, mas com a verdade: a liberdade sempre coube nele. Só faltava espaço para percebê-la.

E enquanto avançava por esse azul sem fim, já livre das amarras que antes o sufocavam, encontrou outros pássaros no caminho. Não eram mestres nem salvadores — apenas aves que, como ele, tinham descoberto que o céu não é um limite, mas um convite. Com eles, aprendeu que perfeição não era velocidade, mas amor, liberdade e a teimosa vontade de se superar um pouco a cada batida de asa. E percebeu que nenhum voo é solitário quando se encontra quem também escolheu o horizonte como lar.

Voou até o limite. Até onde o ar pedia pausa e o coração, repouso.

E então voltou — não para a gaiola, mas para o centro de si mesmo, onde nenhuma grade jamais existiu.

Voltou àquilo que sempre foi dele: sua essência, para aquela chama antiga que voltara a arder, mas agora brilhando com a própria luz.

Se você, meu caro leitor, percebeu alguma semelhança com Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach neste post (sim eu li e sobrevivi para relembrar depois de muitas décadas) … relaxa. Não é delírio literário, não — você está absolutamente certo. 

A culpa foi daquele tipo raro de momento que assobia pela vida sem pedir licença — um status de uma pessoa querida que, do nada, cutucou algo aqui dentro, como quem acende uma faísca antiga sem sequer perceber. E pronto: lá fui eu lembrar do voo da gaivota Fernão Capelo. 

Talvez eu tenha sido influenciado, sim. Ou talvez eu só carregue essa mania de deixar certas palavras despertarem memórias com gosto de vento e filosofia juvenil. 

Difícil saber

Até a próxima, vocês aí do outro lado da tela!

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