O texto que segue nasce inspirado no estilo do cordel, essa forma de poesia popular que carrega ritmo, memória, musicalidade e alma. Antes de chegar aos versos propriamente ditos, preciso dizer que o encanto que o cordel provoca em mim não veio de livro didático nem de explicação acadêmica. Veio da estrada. Veio das minhas andanças por esse Brasil de meu Deus — esse país grande demais para caber só na cabeça, mas que insiste em caber no coração.
Foi numa dessas caminhadas pelo mundo que tive a oportunidade de conhecer o Velho Chico. Conheci sua nascente, tímida, quase improvável de se transformar no imenso rio que viria depois, lá no alto da Serra da Canastra, em São Roque de Minas. Vi o fio d’água nascer discreto, como quem não quer chamar atenção para a grandeza que carrega no destino, logo em seguida a beleza da Casca D'Anta, a primeira grande queda d'água do Velho Chico, e daí em diante vai engrossando seu caldal, atravessando vales, montanhas, planalto e planícies, estreitos, cerrados, agreste e caatinga, para, enfim, desaguar no Atlântico.
Naveguei em suas águas, cruzei a imensa ponte que o atravessa, molhei nele os pés, as mãos e — inevitavelmente — a alma. Mas, como quase todo mundo, eu já o conhecia de longe: atravessando-o em outras pontes, sobrevoando-o em aviões, vendo-o passar como se fosse apenas parte da paisagem. Era como aquelas pessoas que a gente conhece de vista, mas nunca trocou palavra nem aperto de mão. Creio que assim seja a relação da maioria dos brasileiros com o Velho Chico
E claro que você já percebeu: refiro-me ao Velho Chico, ao Rio São Francisco — o rio da unidade nacional. Único grande rio genuinamente brasileiro a correr do sul para o norte, com cerca de 2.700 quilômetros de extensão. Serve a mais de 15 milhões de pessoas, gera cerca de 95% da energia consumida na região e, como se isso não bastasse, é carregado de história, lenda e folclore. Inspira música, literatura, teatro, cordel, culinária, arte e artesanato popular. Por suas águas singraram os navios-gaiola, cujas proas ostentavam carrancas ferozes, criadas para espantar os maus espíritos que vagam pelo mundo tentando se apropriar das almas distraídas.
Mas o que tem o Velho Chico a ver com o texto que apresento agora? Tudo. Absolutamente tudo. Pois foi navegando por suas águas que conheci esse tipo literário que encantou-me naquele tempo.
Assim como o rio, o cordel é exuberante, simples e profundo. Ambos me fazem revisitar lembranças boas, sentimentos antigos — daqueles que moldaram o que sou hoje. O Velho Chico e minhas andanças pelo mundão sem fim deixaram marcas impressas em minh’alma. E essa, meu caro leitor, é a maior riqueza que alguém pode guardar. Mas é preciso pontes para atravessar e é preciso uma ponte para ligar o cordel ao rio, pontes por onde passam pessoas, sonhos, amores (e Motorhomes)
E talvez seja por isso que o Velho Chico me fala tanto ao peito. Porque há rios que a gente atravessa e há rios que a gente espera. Assim foi com um amor que um dia deixei escapar — não por falta de sentimento, mas por imaturidade da vida, dessas que só o tempo ensina a pagar. Apesar do Velho Chico não banhar a região Amazônica, foi lá que conheci esse amor que me leva a recordar, Amazônia, como sempre, jamais esquecerei!
E aquele amor não morreu; ficou latente, quieto feito água subterrânea, correndo escondido por décadas. Nunca deixei de procurar, mesmo quando dizia a mim mesmo que era melhor esquecer. Houve busca, houve silêncio, houve esperança guardada com cuidado, como quem protege uma chama do vento.
E quando esse amor renasceu, mais de trinta anos depois, não foi acaso: foi reencontro de destinos que nunca deixaram de caminhar um para o outro. É por isso que este cordel existe. Porque assim como o rio, o amor verdadeiro pode até se afastar da vista — mas nunca perde o rumo do mar.
Ajustando o Tempo: 33 Anos de Espera⏳
Que lindo o toque do Bráulio Bessa! Vou dar continuidade ao seu cordel, focando na surpresa e beleza desse amor do passado que retorna após mais de três décadas:
“Há quem viva nesta vida
poupando tudo que tem,
se preocupando em deixar
carro, casa ou outro bem.
Mas lhe digo uma verdade:
bom mesmo é deixar saudade
no coração de alguém”
Mas a vida é feita de laços
que se apertam e afrouxam, sim,
de caminhos que se separam
e um dia voltam ao jardim.
E depois de trinta e tantos anos, que pareciam ser o fim a saudade que eu deixei voltou a morar em mim.
A semente que foi plantada
na nossa tenra mocidade,
não morreu com o tempo, não,
e floriu na maturidade.
A vida girou, rodopiou,
mas a essência nos guardou
no cofre da eternidade.
A gente pensava que o tempo já tinha secado a fonte, que o livro estava fechado e a história sem horizonte.
Mas o destino é matreiro
e, num reencontro ligeiro,
me mostrou a verdade pura:
Que o amor de valor se cura
da distância e da moldura.
Não deixou bens, nem fazenda,
nem riqueza de tostão;
Mas deixou a lembrança acesa,
a brasa viva, a paixão.
E o melhor bem que deixamos,
depois de tanto lutar:
É a chance de, enfim, de novo,
o futuro juntos sonhar.
Hoje o beijo tem ruga e história,
não tem a pressa de outrora.
O corpo mudou de casca,
mas a alma, veja só, melhora.
A gente aprendeu com a dor,
com a falta, com o valor
de não perder mais um dia,
e de viver com alegria
o que a vida nos resta agora.
AM."
E, para finalizar esse belo texto, vai aqui , à guisa de fechamento — ao modo de um cordelista cearense – um cordel para encerrar.
E assim se fecha o romance
que o tempo quis atrasar,
feito rio que some em curva
mas insiste em retornar.
O amor não pede licença,
não respeita calendário:
quando é pra ser, meu amigo,
vence até relógio avaro.
Quem soube amar e esperar
sem matar a própria fé,
descobre que a vida ensina
no silêncio do que é.
Pois bem maior que riqueza,
terra, ouro ou posição,
é ter alguém que retorne
pra morar no coração.
E se o destino escreveu
com letra torta esse enredo,
foi só pra provar que o tempo
não apaga amor direito.
Que sigam juntos, portanto,
sem medo do que passou:
quem reencontra um grande amor
já venceu — e o resto é pó.