domingo, dezembro 14, 2025

O tempo não apagou o que não terminou

O dia amanheceu cinzento, chuvoso e frio. Ainda assim, a certeza de que, em algum lugar longe daqui, você pensa em mim acalenta minha alma e a aquece. Mesmo entre nuvens e chuva, o sol insiste em brilhar nos meus dias.

Nos meus sonhos, você aparece sempre. Me conduz por estradas que desejei por tanto tempo, por sentimentos que ficaram represados, por encantamentos que já não cabem em mim.

Penso que, se o famigerado universo assim conspirou, talvez tenha sido melhor assim. Hoje, mais calejado pelas agruras da vida, consigo valorizar ainda mais esse sentimento que tomou conta de mim há tempos — e lá se vão boas três décadas.

Às vezes penso que nossa história ficou guardada, como naquela cena de “Chuva no telhado, vento no portão”. O mundo andando, a vida acontecendo, e a gente atravessando décadas sem se ver. Quilômetros demais entre nós, mas algo que não se dissolveu.

Porque o tempo, quando é de amor, não apaga: ele acumula. Vira saudade, vira lembrança viva, vira esse desejo que chega sem pedir licença. E, mesmo tão longe, eu sinto você perto do que mais protejo: a parte de mim que não desistiu.

Não quero cobrar do passado o que ele não deu. Quero o presente. Quero o dia marcado. Quero a estrada encurtando essa distância. Quero o momento em que você chega e tudo o que ficou suspenso cai no lugar certo — como se o coração pudesse respirar de novo.

E enquanto esse dia não chega, fica aqui a verdade simples, repetida com a firmeza de quem sabe o que quer: tô te esperando.

Porque quando você vier, a saudade não vai apenas passar. Vai trovejar. Vai cair um temporal de amor.

E agora, que tal ouvir a mśuica que fizemos para essa história? 

Ouça: 


PS. Ainda estamos fazendo ajustes na letra da música, possivel divisão em duas músicas distintas está em estudo. Esta é uma versão digamos, beta. Enjoy!

sábado, dezembro 13, 2025

Amor Hacker — três décadas até "nós"

Quando parti de Cuiabá para Porto Velho, atendendo ao convite de meu irmão, eu estava numa situação franca de penúria — financeira e, sejamos honestos, também existencial. Trabalhava na Rádio Vila Real; o ano era 1987, se a memória ainda não estiver me sabotando. Larguei o emprego e fui. O futuro? Um conceito abstrato. Bora para mais uma aventura.

A estrada não me era estranha. Já havia passado um tempo na divisa com o Paraguai, em Ponta Porã; servido na Marinha, no Rio de Janeiro; puxado boi magro de Cidade Jardim, no Mato Grosso do Sul, até Paranavaí, num caminhão boiadeiro. Eu já estava na vida. Quem sabe ali poderia dar certo.

Porto Velho me recebeu sem promessas, mas com trabalho. Primeiro, locutor na Rádio Nacional, sem vínculo, mas com algum dinheiro entrando. Depois, Souza Cruz. Logo em seguida, troquei por outro emprego — nem melhor, nem pior — numa empresa de produtos farmacêuticos. Foi ali, como propagandista, que a vida começou a se mover de verdade, como se alguém tivesse apertado o play.

E então, numa quermesse qualquer — dessas pequenas demais para parecerem decisivas — eu a vi.

Linda. Tipicamente amazonense, ou talvez portovelhense; pouco importava. Havia nela um mistério de rio profundo: olhar cativante, cabelos negros e fartos, pele de avelã. Bastou um instante. Meus olhos não conseguiam desgrudar daquela figura; eu a seguia com o olhar como quem sabe que algo irreversível acabou de acontecer.

Não sabia exatamente o que era aquilo, mas sabia que precisava reencontrá-la. E, quem sabe, com sorte, tê-la por namorada.

O Universo — esse debochado profissional — conspirou a favor. Tudo convergiu para que nossas vidas tomassem o rumo de uma relação intensa, cheia de aventuras, paixão e amor ardente. Cada olhar dela me incendiava. Eu me sentia cada vez mais encantado pelo seu jeito de ser. Jurei, naquele tempo, que nunca a esqueceria. Achei que seria para sempre.

Mas o Universo também gosta de virar o jogo sem aviso.

Sem motivos aparentes, sem explicações, sem fechamento digno, nosso amor teve um fim abrupto. Fiquei submerso em desespero. Procurei por ela de todas as formas possíveis — em vão. O ego ferido acabou se aventurando por outros caminhos, outras histórias, outros rostos. Parecia que eu iria esquecer.

Não esqueci.

O tempo passou. A vida tomou rumos diferentes. Cada um seguiu para seu lado, sem nunca mais nos encontrarmos. Mas aquela jura permaneceu intacta: nunca a esqueci. Jamais.

Trinta anos se passaram. O mundo mudou. Fitas cassete viraram playlists digitais. Mas a conexão entre nós permaneceu — um arquivo impossível de deletar.

Não foi mágica. Foi determinação.

EM 1995, já no curso de graduação em Florianópolis - sim, eu giro o mundo, conheci a ferramenta que poderia ajudar-me a procurá-la. Ali eu tive contato pela primeira vez com um computador e com a Internet (chamávamos de WEB). Ainda muito incipiente, não era fácil encontrar alguma coisa nela. Não havia ainda um Google, naquela época usávamos o Yahoo e o Cadê? (lembra disso??)

Bom, certa vez encontrei menção em um blog, ou jornal, não sei, de Manaus. Ela criticava alguma coisa sobre lojas, ou coisa assim. Claro que eu já comentei, colocando aquela frase que me marcou (acho que a ela também): "Esquecer-te, jamais!". Mas nada aconteceu. 

Assim passaram mais alguns anos, alí por volta de 2004 ou 20005, aqui no Brasl, surgia o Linkedin, claro que eu corri para criar meu perfil ali e a procurei também, e nada. Mas um dia, um clique nessa rede profissional e acadêmica (sim havia procurado no Orkut, Facebook, ICQ, entre outros) aparece um informação com aparência profissional, quase inocente, mas o coração reconheceu antes da razão. Encontrar seu nome entre milhares não foi sorte; foi persistência. 

Ainda assim, o LinkedIn era a cabeça. O que eu buscava era o coração.

Você não estava ali para um “match” de carreira. Era o match da vida.

Veio então a virada: a migração para o Instagram. A busca incessante, o deslizar de perfis, tentativas frustradas, até que, finalmente, a imagem. O rosto — agora mais maduro — mas com o mesmo brilho nos olhos que me fez parar de respirar décadas atrás.

Eu não desisti. Cada pesquisa falha só alimentava a certeza de que a recompensa seria você.

E então, o reencontro.

O que antes era apenas perfil virou presença. O que era foto virou carne. O que era lembrança virou toque. Um amor que atravessou estradas de terra, silêncios longos, duas redes sociais e três décadas finalmente deu login na felicidade.

Somos a prova do Amor Hacker: aquele que contorna obstáculos, ignora o tempo e usa todos os recursos disponíveis para reconquistar o que nunca deveria ter sido perdido.

E foi assim, caro leitor, que a história recomeçou.

Não como algo novo, mas como aquilo que sempre foi — apenas interrompido. Com alguns retoques ainda por fazer, é verdade, mas agora seguindo adiante com a certeza de que o destino havia nos pregado uma peça mal ensaiada. Não era o fim. Nunca foi. Era apenas uma pausa longa demais.

Nossa história não terminou; ficou suspensa, como um salto congelado no ar, esperando o instante exato para tocar o chão outra vez. O momento certo chegou. E quando chegou, não exigiu apagar os arquivos mais importantes — apenas reiniciar o sistema.

O mesmo SO. A mesma essência.

Com pequenos ajustes no HD: mais memória emocional, mais velocidade para amar e, sobretudo, mais segurança para permanecer.

Assim, reiniciamos aquilo que nunca deveria ter parado.

E seguimos — não para corrigir o passado, mas para finalmente viver, no presente, o futuro que sempre nos pertenceu.


sexta-feira, dezembro 12, 2025

Ajustando o Tempo: 33 Anos de Espera

O texto que segue nasce inspirado no estilo do cordel, essa forma de poesia popular que carrega ritmo, memória, musicalidade e alma. Antes de chegar aos versos propriamente ditos, preciso dizer que o encanto que o cordel provoca em mim não veio de livro didático nem de explicação acadêmica. Veio da estrada. Veio das minhas andanças por esse Brasil de meu Deus — esse país grande demais para caber só na cabeça, mas que insiste em caber no coração.

Foi numa dessas caminhadas pelo mundo que tive a oportunidade de conhecer o Velho Chico. Conheci sua nascente, tímida, quase improvável de se transformar no imenso rio que viria depois, lá no alto da Serra da Canastra, em São Roque de Minas. Vi o fio d’água nascer discreto, como quem não quer chamar atenção para a grandeza que carrega no destino, logo em seguida a beleza da Casca D'Anta, a primeira grande queda d'água do Velho Chico, e daí em diante vai engrossando seu caldal, atravessando vales, montanhas, planalto e planícies, estreitos, cerrados, agreste e caatinga, para, enfim, desaguar no Atlântico. 

Naveguei em suas águas, cruzei a imensa ponte que o atravessa, molhei nele os pés, as mãos e — inevitavelmente — a alma. Mas, como quase todo mundo, eu já o conhecia de longe: atravessando-o em outras pontes, sobrevoando-o em aviões, vendo-o passar como se fosse apenas parte da paisagem. Era como aquelas pessoas que a gente conhece de vista, mas nunca trocou palavra nem aperto de mão. Creio que assim seja a relação da maioria dos brasileiros com o Velho Chico

E claro que você já percebeu: refiro-me ao Velho Chico, ao Rio São Francisco — o rio da unidade nacional. Único grande rio genuinamente brasileiro a correr do sul para o norte, com cerca de 2.700 quilômetros de extensão. Serve a mais de 15 milhões de pessoas, gera cerca de 95% da energia consumida na região e, como se isso não bastasse, é carregado de história, lenda e folclore. Inspira música, literatura, teatro, cordel, culinária, arte e artesanato popular. Por suas águas singraram os navios-gaiola, cujas proas ostentavam carrancas ferozes, criadas para espantar os maus espíritos que vagam pelo mundo tentando se apropriar das almas distraídas.

Mas o que tem o Velho Chico a ver com o texto que apresento agora? Tudo. Absolutamente tudo. Pois foi navegando por suas águas que conheci esse tipo literário que encantou-me naquele tempo. 

Assim como o rio, o cordel é exuberante, simples e profundo. Ambos me fazem revisitar lembranças boas, sentimentos antigos — daqueles que moldaram o que sou hoje. O Velho Chico e minhas andanças pelo mundão sem fim deixaram marcas impressas em minh’alma. E essa, meu caro leitor, é a maior riqueza que alguém pode guardar. Mas é preciso pontes para atravessar e é preciso uma ponte para ligar o cordel ao rio, pontes por onde passam pessoas, sonhos, amores (e Motorhomes)

E talvez seja por isso que o Velho Chico me fala tanto ao peito. Porque há rios que a gente atravessa e há rios que a gente espera. Assim foi com um amor que um dia deixei escapar — não por falta de sentimento, mas por imaturidade da vida, dessas que só o tempo ensina a pagar. Apesar do Velho Chico não banhar a região Amazônica, foi lá que conheci esse amor que me leva a recordar, Amazônia, como sempre, jamais esquecerei! 

E aquele amor não morreu; ficou latente, quieto feito água subterrânea, correndo escondido por décadas. Nunca deixei de procurar, mesmo quando dizia a mim mesmo que era melhor esquecer. Houve busca, houve silêncio, houve esperança guardada com cuidado, como quem protege uma chama do vento. 

E quando esse amor renasceu, mais de trinta anos depois, não foi acaso: foi reencontro de destinos que nunca deixaram de caminhar um para o outro. É por isso que este cordel existe. Porque assim como o rio, o amor verdadeiro pode até se afastar da vista — mas nunca perde o rumo do mar.

Ajustando o Tempo: 33 Anos de Espera⏳

Que lindo o toque do Bráulio Bessa! Vou dar continuidade ao seu cordel, focando na surpresa e beleza desse amor do passado que retorna após mais de três décadas:

“Há quem viva nesta vida
poupando tudo que tem,
se preocupando em deixar
carro, casa ou outro bem.
Mas lhe digo uma verdade:
bom mesmo é deixar saudade
no coração de alguém”

Mas a vida é feita de laços
que se apertam e afrouxam, sim,
de caminhos que se separam
e um dia voltam ao jardim.
E depois de trinta e tantos anos, que pareciam ser o fim a saudade que eu deixei voltou a morar em mim.

A semente que foi plantada
na nossa tenra mocidade,
não morreu com o tempo, não,
e floriu na maturidade.

A vida girou, rodopiou,
mas a essência nos guardou
no cofre da eternidade.
A gente pensava que o tempo já tinha secado a fonte, que o livro estava fechado e a história sem horizonte.

Mas o destino é matreiro
e, num reencontro ligeiro,
me mostrou a verdade pura:
Que o amor de valor se cura
da distância e da moldura.
Não deixou bens, nem fazenda,
nem riqueza de tostão;
Mas deixou a lembrança acesa,
a brasa viva, a paixão.

E o melhor bem que deixamos,
depois de tanto lutar:
É a chance de, enfim, de novo,
o futuro juntos sonhar.

Hoje o beijo tem ruga e história,
não tem a pressa de outrora.
O corpo mudou de casca,
mas a alma, veja só, melhora.

A gente aprendeu com a dor,
com a falta, com o valor
de não perder mais um dia,
e de viver com alegria
o que a vida nos resta agora.

AM."

E, para finalizar esse belo texto, vai aqui , à guisa de fechamento — ao modo de um cordelista cearense – um cordel para encerrar. 

E assim se fecha o romance
que o tempo quis atrasar,
feito rio que some em curva
mas insiste em retornar.

O amor não pede licença,
não respeita calendário:
quando é pra ser, meu amigo,
vence até relógio avaro.

Quem soube amar e esperar
sem matar a própria fé,
descobre que a vida ensina
no silêncio do que é.

Pois bem maior que riqueza,
terra, ouro ou posição,
é ter alguém que retorne
pra morar no coração.

E se o destino escreveu
com letra torta esse enredo,
foi só pra provar que o tempo
não apaga amor direito.

Que sigam juntos, portanto,
sem medo do que passou:
quem reencontra um grande amor
já venceu — e o resto é pó.

A Estrada Que Nos Escolheu - Quando duas almas reencontram o caminho — e o destino decide sussurrar de volta.


Há encontros que não precisam de calendário; apenas acontecem quando duas almas, cansadas das próprias estradas, voltam a se reconhecer no meio do caminho. Depois de tanto tempo caminhando em direções diferentes, descobrem que certas conexões não se rompem — apenas adormecem, esperando o instante em que o mundo fica silencioso o bastante para que voltem a escutar um ao outro, e então reencontrem aquilo que nunca deixou de existir.

O texto que você está prestes a ler nasce justamente desse reencontro: duas histórias individuais que, apesar dos desvios, guardaram uma chama discreta, porém teimosa — um amor que, por muito tempo, foi incompreendido, intenso demais para caber em palavras, mas nunca fraco o suficiente para desaparecer. Agora, mais maduros, com as cicatrizes que só o tempo sabe esculpir, esse sentimento finalmente encontra espaço para ser reconhecido, sentido e, enfim, acolhido.

É nesse território onde sonho e verdade se cruzam que caminhamos juntos outra vez. E é daí que surge o “Motorhome dos Sonhos”: não apenas como metáfora de um destino possível, mas como símbolo de tudo aquilo que escolhemos reacender — a nossa estrada, o nosso abrigo, a nossa promessa silenciosa. 

Um motorhome que pode existir em aço e borracha, sim, mas que principalmente se ergue no plano invisível onde nossas almas se encontram; um espaço metafísico que transcende a matéria, sustentado não por paredes, mas pelo que sentimos quando escolhemos sonhar na mesma direção — guiados por aquele universo que sussurra caminhos onde antes só víamos distância.

A Nossa Estrada e o Motorhome dos Sonhos

Existe um mapa que estamos desenhando juntos, traçado não em papel, mas nas linhas cruzadas de um destino que teima em nos pertencer.

É um mapa que se desdobra para além dos caminhos conhecidos, apontando sempre para o horizonte, onde a promessa de liberdade e a coragem de ser quem se é se encontram.

O motorhome dos sonhos não é apenas um veículo; é a metáfora da jornada que vive em suspenso entre nós.

Ele é a nossa ilha móvel, o porto que construímos na imaginação, onde o tempo para e as regras do mundo exterior não alcançam a porta.

Cada janela é um novo quadro que poderíamos estar pintando juntos, uma paisagem diferente a cada amanhecer, refletindo a vastidão do mundo que ambos desejamos desbravar.

É uma casa com rodas, sim, mas também o navio pirata que nos levaria a um tesouro que só nós dois conhecemos: o de viver um dia sem as amarras invisíveis.

Ele tem o motor do seu anseio e a minha bússola no painel, sempre indicando o norte, que é a direção onde o nosso desejo de estar juntos reside, puro e intacto.

Neste motorhome imaginário, os quilômetros não contam o tempo que passamos separados, mas sim a força do sonho que mantemos acesa.

Ele é a testemunha silenciosa das conversas que não tivemos e dos caminhos que ainda estão por ser criados.

Que a imagem desse motorhome continue a ser a chama que ilumina a nossa estrada, mesmo que a viagem real ainda seja apenas um ponto brilhante e distante no horizonte.

Ele é a prova de que, na vastidão da vida, dois corações podem sonhar com o mesmo destino, carregando a esperança de um dia estacionar a alma em um lugar onde a paisagem é só nossa.

E, enquanto esse motorhome não se materializa em aço e borracha, ele já existe no lugar mais seguro e verdadeiro de todos: no espaço entre os nossos corações.

É lá que a nossa viagem acontece todos os dias, no silêncio da distância e na cumplicidade dos planos sussurrados.

Pois a verdade é que o destino nunca foi a paisagem lá fora, mas sim a paisagem que estamos criando quando estamos sonhando.

É você a minha estrada e o meu porto. É em você que a minha alma finalmente encontra o seu lar para estacionar.

E, até o dia em que girarmos a chave e o motor roncar de verdade, saiba que cada batida do meu coração é um quilômetro a menos na espera, um passo a mais na direção do nosso “para sempre” a bordo.

Que venha o motorhome!!

quinta-feira, dezembro 11, 2025

Das coisas que a gente lembra sem querer... o pássaro e a gaiola dourada.

A gaiola era de ouro — brilhante, perfeita, cintilando como se cada barra tivesse sido polida por expectativas alheias. E o pássaro, coitado, vivia ali. Tinha comida, sombra, e um canto que ecoava bonito nas paredes douradas… mas bonito demais, como se a própria acústica o estivesse enganando.  Era de alegria? De tristeza? NEm mesmo ele sabia.

A porta estava aberta há anos. Aberta. Escancarada. Um convite silencioso que reluzia sob a luz, como se dissesse: vai! Sê livre!

E, ainda assim, ele não voava. Permanecia ali, ofuscado pela reluzente gaiola dourada.

Não era medo exatamente. Também não era comodismo — embora a almofadinha dourada no poleiro, macia como desculpa, ajudasse bastante a permanecer. Era um vazio mais fino que ar, mais afiado que silêncio. Uma ausência que brilhava como ouro falso: bela à primeira vista, mas fria ao toque. Algo faltava — um fragmento esquecido de si mesmo, escondido onde as lembranças, às vezes, se recusam a iluminar; uma velha chama que teimava em não se euxarir.

Então, num daqueles acasos cósmicos que parecem orquestrados por mãos invisíveis, aquele tal de Universo, com senso de humor duvidoso, o pássaro encontrou aquilo que achava ter perdido: um lampejo antigo. Uma lembrança. Um alguém.

Um brilho que não vinha do ouro, mas dele. Uma centelha que avivava a velha chama!

Aquilo — ou aquele alguém — não trouxe respostas, nem discursos inflamados. Apenas reacendeu aquela centelha. Pequena, mas teimosa. A lembrança do que era ser livre por dentro, antes mesmo de aprender a voar. A lembrança do que era ser feliz sem saber, do riso solto e leve e das brincadeiras da juventude.

E ali o pássaro entendeu: a porta sempre estivera aberta, mas ele não. 

As grades mais fortes eram as que carregava no peito.

Então começou a arrancá-las, uma por uma — medos, pânico, incertezas e certezas herdadas, a anestesia confortável da rotina dourada.

Doía. Claro que doía. Libertar-se sempre raspa a pele em algum lugar. Mas quanto mais se desfazia das amarras, mais as asas pareciam cintilar com uma luz que não vinha de fora.

Até que, enfim, bateu as asas — sem pedir permissão à dúvida — e subiu.

Subiu tanto que a própria luz mudava ao seu redor, como se o céu estivesse gradualmente lembrando seu nome. O mundo lá embaixo virou um borrão, e a insegurança encolheu, diminuindo até virar apenas um ponto.

No ar rarefeito da coragem, abriu suas asas por inteiro, e parecia que cada pena refletia um pedacinho do céu, como se fosse feito do próprio azul.

Num salto ousado, mergulhou em voo rasante sobre penhascos — o vento cortando o peito como quem varre restos de histórias antigas.

E então viu, de relance, a gaiola dourada. Pequena demais para qualquer sonho. Fina como joia esquecida. Tão distante que sua luz já não o seduzia.

À frente, a imensidão azul se estendia — não como paisagem, mas como promessa. Um céu tão vasto que quase o chamava pelo nome. O pássaro se deslumbrou, não com a beleza, mas com a verdade: a liberdade sempre coube nele. Só faltava espaço para percebê-la.

E enquanto avançava por esse azul sem fim, já livre das amarras que antes o sufocavam, encontrou outros pássaros no caminho. Não eram mestres nem salvadores — apenas aves que, como ele, tinham descoberto que o céu não é um limite, mas um convite. Com eles, aprendeu que perfeição não era velocidade, mas amor, liberdade e a teimosa vontade de se superar um pouco a cada batida de asa. E percebeu que nenhum voo é solitário quando se encontra quem também escolheu o horizonte como lar.

Voou até o limite. Até onde o ar pedia pausa e o coração, repouso.

E então voltou — não para a gaiola, mas para o centro de si mesmo, onde nenhuma grade jamais existiu.

Voltou àquilo que sempre foi dele: sua essência, para aquela chama antiga que voltara a arder, mas agora brilhando com a própria luz.

Se você, meu caro leitor, percebeu alguma semelhança com Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach neste post (sim eu li e sobrevivi para relembrar depois de muitas décadas) … relaxa. Não é delírio literário, não — você está absolutamente certo. 

A culpa foi daquele tipo raro de momento que assobia pela vida sem pedir licença — um status de uma pessoa querida que, do nada, cutucou algo aqui dentro, como quem acende uma faísca antiga sem sequer perceber. E pronto: lá fui eu lembrar do voo da gaivota Fernão Capelo. 

Talvez eu tenha sido influenciado, sim. Ou talvez eu só carregue essa mania de deixar certas palavras despertarem memórias com gosto de vento e filosofia juvenil. 

Difícil saber

Até a próxima, vocês aí do outro lado da tela!

quarta-feira, dezembro 10, 2025

Sobre os Professores que me formaram — e o eco que deixaram em mim

Dia desses recebi da Amazônia dois vídeos nos quais os alunos emocionados agradeciam à professora as aulas recebidas. Olha, a professora que é durona, sabe?, - daquelas que não se deixam cair por qualquer coisa -, percebi um certo, “eita! Caiu um cisco aqui no olho!” … e foi por conta desses vídeos é que surgiu a ideia para este post de hoje. Aí vai:

Sempre que paro para pensar na minha trajetória, percebo que boa parte do que me tornei foi moldada por professores que deixaram marcas profundas em mim. Não falo apenas de conteúdos ou técnicas, mas daquelas presenças que, de alguma maneira, fizeram o mundo parecer maior, mais curioso e mais possível. E, olha, isso vem de alguém que não costuma admitir sentimentalismos em voz alta — mas cá estamos.

Tudo começa lá na infância, com a Tia Olguinha. Foi ela quem abriu as primeiras portas para um mundo que eu ainda não entendia, mas que parecia fascinante. Depois, já um pouco mais crescido e cheio das manias escolares, vieram outros nomes que se fixaram na minha memória: a Jandira Antun, com seu domínio do português, que me fez perceber que a língua podia ser mais do que um conjunto de regras; Letícia (??) Kimura – fiquei na dúvida do primeiro nome, mas o sobrenome não!, que conseguiu a façanha de me fazer gostar de matemática — e, convenhamos, isso merece uma estátua. 

Teve o Professor Borba, com sua mania de fumar na sala e jogar giz – sim, naquela época os professores usavam giz branco (ou de outras cores) e escreviam numa lousa de fundo verde, nada de lousa digital, que conecta internet (isso nem existia naqueles tempos), voltemos ao Borba, era Geografia, ensinou-me as regiões, os relevos e tudo mais; lembro também do Prof. Messias, com as aulas de Educação Moral e Cívica (sim, existia essa matéria…) e assim foi até terminar esse calvário do ensino fundamental e médio, e muitos outros que me fogem na memória. 

Na graduação, a história ganhou camadas novas. Hector Leis me apresentou debates sobre poder e lugar de fala que me acompanharam por anos; Marcílio Dias abriu caminhos sobre Tecnologias de Comunicação e Informação no Ensino; Scherer-Warren descortinou o universo das redes de movimentos sociais; e Óscar Calávia colocou-me diante da antropologia das religiões como se abrisse uma janela para outro planeta. Lembro até hoje da primeira vez que encarei Os Argonautas do Pacífico Ocidental, de Bronisław Malinowski — um daqueles livros que nos dá a impressão de que a vida acadêmica pode ser uma aventura, antes de descobrirmos que envolve também prazos, bancos de dados e café frio. 

Durante o mestrado, outros nomes foram se somando: Nerí dos Santos, com ergonomia e usabilidade; Michel Misse (in memoriam), com seus estudos sobre violência e criminalidade; Bernardo Sorj, com suas discussões sobre diáspora judaica. Cada um, à sua maneira, foi empurrando a minha visão de mundo para lugares que eu sozinho não chegaria.

E foi assim, carregando esse mosaico de mestres, que em 2003 iniciei minha própria trajetória como professor no ensino superior. Quinze anos tentando, de alguma forma, colocar em cada aula um pouco do que recebi daqueles que vieram antes de mim. Às vezes conseguia; outras, parecia que estava apenas tentando não tropeçar na tecnologia da sala. Mas sempre havia o desejo sincero de transmitir algo que fosse além do conteúdo: o encanto pelo aprendizado.

Com o tempo, também encontrei meus próprios alunos marcantes — aqueles que até hoje surgem nas minhas redes sociais, os que me reencontram pelos corredores da vida, os que lembram de uma frase que eu nem recordava ter dito. E é sempre nos momentos frugais da vida, ou naqueles em que ocorria a formatura, quando o curso chega ao fim, que essas memórias afloram: as homenagens inesperadas, as mensagens sinceras, o reconhecimento de um caminho que percorremos juntos. Nessas horas, mesmo que discretamente, eu me pego pensando: “poxa… acho que fiz algo certo.”

Se você que me lê também é professor, talvez saiba exatamente do que estou falando. Não é um ofício simples — longe disso —, mas é um dos poucos em que podemos devolver ao mundo, aula após aula, um pedacinho dos mestres que nos formaram. E, quando vemos esse ciclo continuar, é impossível não se sentir tocado. É um privilégio silencioso, desses que não cabem no currículo, mas ficam guardados no coração — mesmo que a gente faça pose de durão.

terça-feira, dezembro 09, 2025

Fio Azul (ou vermelho) - complemento do post anterior

Leitores e leitoras deste emblemático e insignificante blog. No último post eu senti certa dificuldade em finalizá-lo adequadamente, pois percebia que alguma coisa a mais poderia ser dita sobre o tema. Desafiei-os a complementá-lo e, com alegria imensa, recebi uma mensagem com um complemento. 

Ao lê-lo, considerei tão repleto de sentimento que achei que merecia um novo post, somente para ele. Eis o complemento: 

“Talvez o amor nos convoque porque sabe que somos feitos de brechas. Ele se instala justamente onde a razão não alcança, abrindo janelas por onde entram ventos que não controlamos. Há encontros que parecem sussurrar verdades antigas, como se duas almas, distraídas do mundo, reconhecessem uma à outra por algum código secreto que o tempo esqueceu. E, ainda assim, cada passo dado nesse território é novo, frágil, transparente, uma travessia em que o coração vai tateando no escuro, confiando mais na intuição que na certeza.

E quando o amor chega, ele não ilumina tudo: deixa sombras. Sombras que dançam com a luz, lembrando-nos de que até o mais doce afeto carrega mistérios que não se explicam. Talvez seja essa dança,  entre o que sabemos e o que pressentimos… que faz o sentimento pulsar. Amar é aceitar que algumas perguntas jamais terão resposta, e que mesmo assim vale a pena tentar decifrá-las. Porque, no fim, é nesse enigma que mora a beleza: em sentir sem entender, em permanecer mesmo quando o coração treme, em mergulhar sabendo que a profundidade é desconhecida.”  
Amazônia

E eu gostaria de complementar o complemento, se me o permite a autora. Estava mesmo tateando a ideia de uma lenda, ou conto, sobre a ligação entre almas, uma espécie de linha que as liga neste mundo. Para os que acreditam na possibilidade de várias existências isso pode ser considerado, já para outros, apenas uma coincidência, nada mais.

Mas o fato que permanece é que não sabemos bem como explicar a ligação que existe entre algumas pessoas, aquelas que passam por nossa existência, deixando marcas, perfumes e saudades. E, às vezes, elas se encontram. Afinal é essa a essencia dessas almas, encontrarem-se um dia. Enquanto esse encontro não acontece parece que há uma sensação de incompletitude, de que um vazio se forma no peito e não sabemos bem explicar o porquê. 

Eis aqui um breve resumo da lenda:

“Diz a velha lenda que há, no coração secreto do mundo, um fio azul — tênue como o suspiro que não ousa nascer — que liga duas almas que se procuram desde antes do tempo.

É um fio feito de silêncio e madrugada, desenhado na respiração do vento, e que atravessa vidas, distâncias, nomes que mudam e corpos que cansam.

Quando uma alma treme, a outra escuta.

Quando uma se perde, a outra acende um lume invisível, como quem chama de volta o que é seu por destino e ternura.

Não é um laço de posse, mas de promessa.

Não prende: convoca.

Não exige: reconhece.

E assim seguem as duas, errantes e eternas, cada qual levando no peito o eco azul do outro, até que um dia — no instante em que o mundo respira mais devagar — se reencontrem e compreendam, enfim, que nunca caminharam sós.”

Há, também, uma animação sobre isso, muito embora a minha versão seja um pouco diferente, a cor do fio que é azul e não vermelho, que vai acima, além disso é uma versão poética, meio florbeliana, que inventa uma simbologia própria: azul = serenidade, madrugada, silêncio, espiritualidade suave.

A versão tradicional do hilo rojo (fio vermelho) é mais mítica, nipônica, já estabelecida: vermelho = destino, paixão, ligação inevitável.

Mas a ideia central? Duas almas conectadas por um vínculo invisível que atravessa o tempo e o espaço.  

Vai aqui a animação…




Um titanic de sinceridade

Nós, humanos, somos criaturas fascinantes: passamos a metade do tempo fugindo de decepções e a outra metade correndo atrás delas como se fossem os louros da nossa vitória, tal qual meninos com flores na mão.

Ser romântico é caminhar alegremente rumo ao precipício, cantarolando como se cada passo não fosse só mais um centímetro em direção ao fundo pedregoso da sofrença. 

Mas isso é justamente o que torna tudo tão… tão… me falta a palavra certa, misterioso? Fascinante? Arrepiante?… não sei ao certo. Saberia, você, explicar essa incerteza? 

Talvez porque, no fundo, amar é um ato de coragem — ou de teimosia inglória ou, quem sabe tudo isso junto. Vai entender a cabeça dos enamorados?

Penso que, se existe, esse tal grande segredo dos relacionamentos que os poetas declamam, seja o fato, concreto, de que ninguém realmente sabe o que está fazendo. 

Num aceno ao profundo (e põe pro fundo nisso) filme daquele navio que afundou, sejamos mesmo quase, ou totalmente, como Jack e Rose, debatendo quem cabe na porta, discutindo física básica enquanto o mundo afunda. Uma discussão que esconde os verdadeiros motivos disso: o equivocado sentido romântico do ato de amar a outra pessooa, a tal  ponto de sacrificar-se por ela. Mas será que isso é a melhor forma de amar ao outro? Que dúvida!

E é justamente nisso que reside a beleza dos relacionamentos humanos: não na segurança, mas no risco. Não na certeza, mas no arrepio da dúvida. Não na porta flutuante, mas na disposição de se jogar na água gelada por alguém, mesmo que isso inmplique na sua completa aniquilação. 

E, sinceramente, se não houver esse arrepio, essa incerteza, melhor deixar tudo naufragar mesmo, bem profundamente, pois com certeza não é amor, nem paixão, nem nada de belo… só obsessão, essa personificação da carência afetiva que assola a tantos por aí. 

E, quer mais sinceridade? Se isso não é profundamente romântico, tragicômico e humano, então nada mais é.


PS. eu tive certa dificuldade em finalizar esse post, se você, meu querido (a) leitor (a) quiser melhorá-lo, modificá-lo, ou sugerir outra linha de raciocínio, fique à vontade para isso, basta postar nos comentários. 

segunda-feira, dezembro 08, 2025

A ironia Cósmica do Afeto


O Universo deve possuir humor negro, a verdade é essa! Pois inventou o amor só para ver dois seres humanos completamente despreparados tentando lidar com algo tão complexo quanto as regras do jogo de xadrez, que para alguns é a maior moleza, para outros parece grego, ou linguagem alienígena. 

Você se diz: "Ei, Universo! Estou pronto para amar! Manda aí minha alma gêmea!". O Universo diz: "Segura essa, campeão", e te entrega alguém que vai te fazer sentir um misto de euforia, taquicardia, de ligar altas horas da madrugada, percorrer milhares de quilômetros só para dizer: eu te amo! 

Às vezes isso pode dar totalmente errado, as mensagens se perdem, as almas se desprendem e cada um segue por um caminho diferente, separados um do outro. 

Aí, depois de um tempo, às vezes longo, às vezes curto, tudo pode acontecer, vem o tal de “Universo”, dando uma de, ops, foi mal! desculpa aí, campeão! E te faz reviver tudo novamente. 

Ele, o universo, afirma que desta vez vai ser diferente e você, com o mesmo ímpeto de antigamente se entrega a esse sentimento, cheio de emoções e incertezas. 

Só vai saber se vai dar certo depois, depois que se entregar totalmente, incondicionalmente. 

E aí você chama isso de encontro de almas. Mas eu, que pensava ter a casca grossa, chamo de “a rachadura na casca do meu ser."

Durma-se com mais essa! Ao final, só podemos agradecer e esperar que o tal universo acerte, pelo menos uma vez!

[]ś

domingo, dezembro 07, 2025

Atualizando um post antigo... Amazônia... esquecer-te, jamais!

Afundado em Emoção — Versão Realidade (Finalmente)

Depois de décadas submerso em silêncio, algo resolveu despertar — não como lembrança teimosa, mas como uma presença viva. Bastou um simples "e aí? tudo bem?" para que o passado, antes guardado como fotografia amarelada, voltasse com nitidez quase insolente.

O reencontro aconteceu, finalmente. Ainda à distância, claro — porque minha vida insiste em funcionar no modo difícil — mas aconteceu. E a conversa fluiu com a naturalidade de quem nunca perdeu o ritmo, como se o tempo tivesse apenas colocado a história em pausa, não em esquecimento. A verdade é que a frase se fez realidade e nunca, jamais, esqueci.

As recordações, essas sim, vieram fortes: cheiros, vozes, gestos, tudo se encaixando com uma familiaridade que desafia o relógio. Não é mais só memória. É memória atravessando o presente, refazendo caminhos que eu achei que já tinham virado lenda.

Agora, tudo parece mais claro: algumas emoções não enfraquecem. Apenas esperam a chance certa de voltar a respirar. E é mesmo verdade, não consegui mesmo te esquecer. 

PS. se quiser ler o post de 2019, veja aqui


Bacio (para quem não entendeu isso: seria Abraços, em um italaiano que só eu entendo. Ah, o Alessandro Andreini também!

O tempo não apagou o que não terminou

O dia amanheceu cinzento, chuvoso e frio. Ainda assim, a certeza de que, em algum lugar longe daqui, você pensa em mim acalenta minha alma e...