Chove. e como chove?!. Revendo antigos post do DV.. Huxley
Há seis anos escrevi dois textos sobre Admirável Mundo Novo. No primeiro, tomado pelo desânimo daqueles dias de pandemia, praticamente desisti do livro e de Huxley. No segundo, contudo, resolvi insistir na leitura e comecei a perceber que havia algo naquela história que me inquietava mais do que eu estava disposto a admitir. Hoje, numa tarde igualmente cinzenta — não por causa de um vírus, mas porque a chuva interrompe as fiscalizações aqui em Paraíso do Norte, enquanto o Rio Grande do Sul enfrenta mais uma de suas dolorosas enchentes — aproveitei o raro luxo do tempo para reler aqueles dois posts.
Da janela da Prefeitura observo o céu carregado cobrindo a cidade. Não há muito o que fazer além de esperar que a chuva dê trégua. Entre um café e outro, reencontrei aquele Nêodo de agosto de 2020: inquieto, impaciente e, talvez sem perceber, procurando no livro respostas para um mundo que parecia ter perdido o rumo.
Naqueles textos eu dizia, sem cerimônia, que havia abandonado Admirável Mundo Novo logo no primeiro capítulo. Achei a narrativa enfadonha, os personagens artificiais e a proposta exagerada. Confesso que fui injusto com Huxley. Não porque hoje considere o romance uma obra perfeita — continuo achando que sua narrativa exige paciência —, mas porque finalmente compreendi que ele nunca pretendeu impressionar pela história. A história é apenas um veículo. O verdadeiro romance acontece na cabeça do leitor, quando ele percebe que Huxley não escrevia sobre laboratórios, eugenia ou provetas. Escrevia sobre a condição humana.
Naquele agosto eu sonhava com coisas simples: um café numa cafeteria, uma caminhada sem receios, um abraço sem desconfiança. A vida, felizmente, seguiu seu curso. A pandemia terminou, as ruas voltaram a encher, reaprendemos a tocar as pessoas e, como sempre acontece, transformamos o extraordinário em lembrança. Nem todos chegaram até aqui. Algumas cicatrizes permaneceram, é verdade. Nós também.
O curioso é que, enquanto o vírus desapareceu do centro das nossas preocupações, as inquietações de Huxley permaneceram. Hoje percebo que o grande perigo de sua distopia não era uma suposta ditadura da ciência, como imaginei naquela primeira leitura. Era algo muito mais sofisticado: uma sociedade que troca, voluntariamente, a liberdade pelo conforto, o pensamento pelo entretenimento, a inquietação pela satisfação imediata. Não é preciso proibir livros quando já não sentimos vontade de lê-los. Não é necessário construir prisões quando aprendemos a gostar das grades invisíveis.
Talvez seja justamente aí que Huxley encontre seu contraponto em Orwell. Um imaginou um mundo em que o poder controla porque vigia; o outro, um mundo em que o poder quase não precisa vigiar, porque aprendemos a desejar exatamente aquilo que nos mantém dóceis. Em alguns dias, parece que caminhamos sob os olhos atentos do Grande Irmão. Em outros, tenho a impressão de que preferimos, espontaneamente, o conforto de uma dose de soma — qualquer que seja o nome que ela receba em nossos tempos.
Curiosamente, em um daqueles textos de 2020 eu perguntava se a internet seria o soma imaginado por Huxley. Hoje penso que não. A internet é apenas um dos seus possíveis veículos. O soma é tudo aquilo que nos anestesia, que nos poupa do desconforto de pensar, de duvidar ou de enfrentar a realidade. Pode assumir a forma de uma tela, de um algoritmo, de um consumo incessante ou mesmo de uma felicidade cuidadosamente fabricada.
No fim das contas, descobri que alguns livros não mudam. Quem muda somos nós. Há leituras que chegam antes da hora e parecem apenas enfadonhas. Outras permanecem silenciosamente na estante, esperando que a própria vida se encarregue de explicar aquilo que o autor escreveu décadas antes.
Enquanto a chuva continua caindo lá fora, fico pensando que talvez escrever seja exatamente isso: revisitar, de tempos em tempos, as pessoas que já fomos. Às vezes para lhes dar razão. Outras, apenas para lhes pedir desculpas.
Talvez toda boa literatura seja assim. Ela não nos diz como será o futuro. Apenas nos oferece um espelho. E cada geração acaba enxergando nele um reflexo diferente. Descobri, afinal, que o leitor de 2020 estava errado... mas não completamente.
Bração!

Comentários